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Cantoras se apresentam com a voz que têm hoje, e é injusto cobrar delas os tons de outrora

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Desabafo de Áurea Martins em rede social levanta questão que aflige intérpretes veteranas.

“Estou chegando aos 80 anos. Não esperem de mim a mesma vivacidade de 20 ou 30 anos atrás. Aliás, é totalmente impossível não colher as marcas do tempo. (…) Portanto, não me cobrem nada além do que posso fazer. Não tenho o mesmo frescor na pele como tinha há décadas, não tenho o mesmo fôlego para cantar no mesmo tom de outrora, não faço mais noite – foram 50 anos ininterruptos – nos bares esfumaçados das noites cariocas”.

ANÁLISE – Feito em tom sereno em rede social, o desabafo de Áurea Martins – cantora carioca que completa 80 anos de vida em 13 de junho – joga luz sobre problema que aflige cantoras que já ultrapassaram os 70 anos, casos de grandes cantoras do Brasil.

Trata-se das injustas cobranças de críticos, fãs e seguidores pelos tons vocais do passado de glória. “Cantar é vestir-se com a voz que se tem”, sentenciou Teresa Cristina em verso lapida de Cantar (2007), uma das músicas mais inspiradas do cancioneiro autoral da cantora e compositora carioca.

Sim, cantoras se vestem no palco com a voz que têm hoje e, como tal, jamais podem ser minimizadas se essa vestimenta já não cabe no molde desenhado na mente do espectador / ouvinte que muitas vezes espera ver ali uma cantora que já não existe mais.

Além de injusto, tal cobrança é cruel porque enxerga na cantora uma máquina de produzir notas afinadas, e não um ser humano que está ali, no palco ou no disco, cantando para amenizar dores próprias e alheias. E para fazer muitas vezes o público “achar o tom da alegria perdida”, citando outro verso da letra de Teresa Cristina.

Se o tom já não é o de outrora, a maturidade tampouco. E isso conta a favor. A voz e alma maturadas alcançam tons, notas e interpretações inatingíveis no frescor da juventude. É quando entra em cena a voz da inteligência, da percepção apurada dos sentimentos da vida e das coisas que estão no mundo para sempre aprendidas.

A cantora Áurea Martins completa 80 anos em junho e pede que não cobrem dela ‘o tom de outrora’ — Foto: Percio Campos / Divulgação

Não espere de Gal Costa, aos 74 anos, os agudos lancinantes da juventude, mas a sensibilidade desenvolvida em 56 anos de carreira. Percepção que permitiu a cantora lançar nos anos 2010 alguns dos títulos mais importantes da discografia iniciada em 1965 porque Gal traz a vida na voz cristalina.

Mesmo sem a destreza vocal de outrora, Elza Soares completa 90 anos em junho no auge, tendo legado ao mundo desde 2015 dois dos álbuns mais importantes da discografia brasileira dos anos 2010. Mesmo sem realizar as proezas operísticas dos anos 1980, Cida Moreira se torna a cada dia uma cantora mais sagaz ao desvendar os segredos de cada canção. Simone baixou os tons e elevou a elegância.

Exigir de uma cantora veterana a pirotecnia vocal de tempos idos equivale a se comportar (mal) como aqueles espectadores que atiravam ovos nas cantoras de ópera que já não alcançavam a nota mais alta. A voz da experiência conta, e muito, porque o canto nunca foi a arte da matemática.

Maria Bethania é caso singular de cantora cujo diamante vocal foi sendo lapidado com o tempo — Foto: Jorge Bispo / Divulgação

Há, sim, cantoras (geralmente as de vozes graves) que preservam e até melhoram o tônus da voz com o tempo. É o caso singular de Maria Bethânia. Nana Caymmi também melhorou com o tempo. E Zizi Possi continua com a voz tão límpida e expressiva como nos anos 1990. Só que tomar exceções como regra é desafinar a noção de que o canto é a arte da inteligência.

Cantoras que almejam o pódio pelo alcance vocal geralmente produzem gravações estéreis que jamais deixarão frutos para a posteridade. Cida Moreira, Elza Soares e Gal Costa – para citar somente algumas cantoras mencionadas no texto – legam discografias que atravessarão gerações, mesmo que as vozes não tenha ficado imunes aos cortes da lâmina do tempo. E isso, o legado para o futuro, é o tom maior de toda cantora realmente grande.

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Fonte: Pop & Arte – G1

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