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Tim Bernardes mantém repertório de Gal Costa em alto patamar com versões realmente lindas

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Vocalista do trio O Terno aborda músicas gravadas pela cantora em programa do Canal Bis.

Tim Bernardes canta Gal Costa no programa ‘Versões’ — Foto: Fabiano Leone / Divulgação

Nenhum repertório é inalcançável para intérpretes com alma. Mais do que voz, é preciso ter personalidade para encarar cancioneiro consagrado sem sucumbir às modernices do momento e sem cair no movediço terreno do cover.

Dentro e fora do trio paulistano O Terno, do qual é fundamental compositor e arranjador, Tim Bernardes já provou ser um expoente da geração musical brasileira dos já agonizantes anos 2010. Inclusive como cantor capaz de atingir o céu em algumas interpretações.

O talento singular do artista paulistano salta aos ouvidos na abordagem do repertório referencial de Gal Costa em programa exibido recentemente na quinta temporada de Versões, série do Canal Bis.

Tim mantém o repertório desse cantora matricial em patamar alto sem perseguir os registros emblemáticos de Gal. Na alternância de graves e agudos da interpretação de Índia (José Asunción Flores e Manuel Ortiz Guerrero, 1928, em versão em português de José Fortuna, 1952), calcada no toque do violão do próprio artista, Tim Bernardes parece ter todo um Paraguai dentro do coração em que faz pulsar a guarânia gravada por Gal em 1973.

Salpicando notas ao piano, o cantor também transmite a solidão e o cansaço imersos nas águas que conduzem Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) às ondas aterrorizantes do Brasil de 2019.

A dor também lateja no fluxo migratório da vida que impulsiona Mamãe, coragem (Caetano Veloso e Torquato Neto, 1968) rumo a um futuro incerto. Com entendimento preciso do movimento das canções na espiral do tempo, Tim Bernardes também “risca outra luz e outra cor” ao dar voz, com o violão, a Negro amor (1977), versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para It’s all over now, baby blue (Bob Dylan, 1965).

É ainda com o violão que Tim preserva o quilate de Joia (Caetano Veloso, 1974), lapidada por Gal no álbum Cantar (1974), de cujo repertório o vocalista do Terno também colhe Flor de maracujá (João Donato e Lysias Ênio, 1974) em interpretação que desabrocha com a devida leveza sem a tentativa de clonar a bossa da cantora.

Contudo, Tim se eleva mais à medida em que aumenta a densidade das canções. Impregnada de tristeza bluesy, Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1969) se afina com o tom do sublime primeiro álbum solo de Tim, Recomeçar (2017). O mesmo pode ser dito da interpretação de Volta (Lupicínio Rodrigues), samba-canção de 1957 que Gal tomou para si em 1973 por ser cantora personalíssima.

Sim, já temos um passado nobre na música brasileira – sobretudo na era da MPB – e é preciso estar atento e forte ao reabrir a cortina desse passado sem virar clone de vozes antecessoras. “Chega de saudade”, brada Tim Bernardes, repetidas vezes, entre acordes cortantes de guitarra, ao fim de Saudosismo (Caetano Veloso, 1968).

Nessas versões disponíveis para assinantes do Canal Bis, Tim Bernardes jamais se apequena diante de Gal Costa – para quem compôs o ijexá Realmente lindo (2018), devidamente incluído na voz do autor no roteiro do programa – e, ao mesmo tempo, reitera a grandeza dessa cantora mãe de muitas vozes e dona de repertório que resiste em todos os sentidos. É tudo realmente lindo! (Cotação: * * * * *)

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Fonte: Pop & Arte – G1

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