Atualizando o que penso sobre além de meu umbigo, o golpe que não assume seu nome pode ter saído dos trilhos (respingando até em muitos de seus arquitetos) mas prossegue. Rumo ao atraso.  A reforma política feita pelo atual Congresso é como botar alcoólatra para cuidar da destilaria. Para manter muita da oligarquia que está por lá. Como vemos, dá para piorar muito mais. Parlamentarismo, por exemplo, com as bancadas que temos, é o fim dos tempos. E, claro, uma forma de tirar do jogo o Sapo Barbudo caso as armadilhas do homem de preto de Curitiba não funcionem. Enquanto isso, o ilegítimo trama abertamente para se livrar das denúncias que o procurador-geral com os dias contados guarda nas mangas da toga.
    E o país também retrocede em questões trabalhistas, ambientais, sociais… Indígenas, quilombolas são ameaçados e, no Rio, continua preso Rafael Braga. Como se sabe, injustiça que vem da era Dilma, preso durante as jornadas de junho de 2013 por portar garrafas de Pinho Sol e água sanitária que foram consideradas material explosivo. Em janeiro de 2016, na condicional, monitorado por tornozeleira eletrônica, voltou a morar com a família numa favela e, mesmo com emprego fixo, foi  vítima de um “kit flagrante” forjado por policiais de UPP de sua área. Cerca de 10 gramas de maconha que lhe renderam uma condenação a mais de 11 anos de prisão por tráfico de drogas e associação ao tráfico. Nada se comparado ao helicóptero com 500 quilos de cocaína dos intocáveis Perrella em Minas ou os 129 quilos de maconha e as 270 munições do filho da desembargadora em Mato Grosso do Sul que trocou a prisão por um clínica médica.
    Na segunda-feira passada, 4/8, véspera do do julgamento de um habeas corpus para Rafael, cerca de 300 manifestantes se reuniram em frente ao prédio do Ministério Público do Rio e saíram em passeata, mas, mais uma vez, ao invés de cega, a justiça revelou-se racista. Após um passeio não programado pelo Morro da Conceição que nos levou até o Cais do Valongo, K e eu fomos lembrados por um sobrinho, J, e nos juntamos a ele, no ato.

    Não sou saudosista, mas o mundo piorou bastante nos últimos anos. Abrindo o leque,  como imaginar que depois de Obama (mesmo sendo mais um símbolo do que um grande estadista) os EUA estariam nas mãos de Trump?  Um pateta fundamentalista (por sinal, fui atrás de “Fire and fury” e vi se tratar de um hit de banda de metal cristã do Tennessee, trilha sonora do Apocalipse mesmo) que consegue ser bem mais irresponsável do que seu colega de topete na Coreia do Norte, como atestam as trocas de ameaças nesta semana.
Esse flashback da Guerra Fria vai acabar em farsa ou tragédia nuclear?

    Em tempo real, o telefone fixo tocou novamente, fui atender e, como na canção velha de Jorge Ben, não era o meu amor. E sim mais uma oferta da operadora que, segundo o noticiário econômico, está mal das pernas. Nos últimos tempos, mais de 80% das ligações que nos procuram são de telemarketing, sendo a maioria da própria concessionária de telefonia que nos atende/atormenta.

    Para piorar, o mac de 13 pol que já tinha fraquejado em fins de junho, quando simplesmente não quis ligar, voltou a dar pane na terça-feira. Como a garantia estendida vai até setembro de 2018, rumei em direção à autorizada que o suporte telefônico da Apple Brasil me sugeriu e, diagnóstico feito, dependo agora do prazo de sete dias úteis para a placa mãe danificada chegar.  Enquanto aguardo, brigo com um modelo mais antigo, operando em ritmo de lesma.
    Lamúrias atualizadas, vamos à música.

@@@@@

    Quatro títulos físicos apenas (e, confesso, comemoro o número baixo), interessantes  e bem diferentes entre si. Velha e boa MPB em “Maresia” (Fina Flor), disco de estreia de nova cantora, Maria Marcella; MPopB em “Mana”, terceiro solo do cantor, compositor e guitarrista Luiz Gabriel Lopes;  jazz brasileiro em “Suíte para improvisadores”, do  baixista e compositor Ronaldo Diamante; e clássico brasileiro em “AM60 AM40” (Selo Sesc), de Antonio Meneses (violoncelo) e André Mehmari (piano).
    Em tempo real, enquanto dou última revisada antes do publique-se, acaba de tocar a campainha e chega um quinto físico. Por motivos óbvios, ficará para a próxima coluna, mas, título e autores acendem o interesse: “Voz Nagô: Afro samba de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro”.

    Por critérios da anacrônica (e ainda sem rumo) indústria musical, “Noite de paz” (Dolores Duran) não seria a adequada para abrir um álbum. Mas, nesses tempos de quase extinção do disco físico, “Maresia” (Fina Flor) está mais para um livro, com 13 capítulos-canções que dialogam. E a cantiga que mais parece uma oração, apresentada com leveza por Maria Marcela e Lúcio Rodrigues (arranjo e violão de 7cordas), é certeira introdução para a sequência que alterna o amor e o mar como tema. Dolores Duran volta em outras três faixas, respondendo mais pela primeira vertente: “Não me culpe” e, em parceria com Ribamar, “O que é que eu faço” e “Pela rua”. A outra rota é reforçada por  águas de Dorival Caymmi (“Noite de temporal” e “Sereia/Rainha do Mar”) e do filho Dori, este também com duas, ambas com letra de Paulo César Pinheiro, pintando uma marítima em “Quebra-mar” e, na outra ponta, romântico em “Saudade de amar”. Através do disco, fiel ao roteiro, a cantora  ainda recorre a Baden & Vinicius (“Canto de Yemanjá”), Candeia (“O mar serenou”), Cartola (“Autonomia” e, em dupla com Elton Medeiros, “Peito vazio”) e arrisca uma composição própria, “Seletivo” – temeridade que não atrapalha, tampouco acrescenta.
    Voz límpida, técnica precisa, Maria Marcella tem timbre que remete ao da xára de iniciais Marisa Monte – principalmente quando esta se volta a clássicos de Pixinguinha e Paulinho da Viola -, mas não cola no estilo. A intérprete acima da média e o repertório bem escolhido também são valorizados pela concepção instrumental frugal: voz; violão de 7cordas (Lúcio Rodrigues) em quase todas; mais percussão (Edgard Araújo) em muitas delas; outras ainda com bandolim (Abel Luiz, que às vezes troca para o violão tenor ou a viola); apenas piano (Fernando Leitzke) em “Quebra-mar”; e um sexteto com todos esses mais violino (Thiago Proença) e trombone (Sérgio de Jesus) em “O que é que eu faço”. Em mar repleto de vozes femininas, é bela estreia, pronta para mais.

   
@@@@@

   Artista que às vezes assina como LG Lopes e também desenvolve trabalhos nos grupos Graveola (e o Lixo Polifônico) e Tião Duá, Luiz Gabriel é mineiro mas, esteticamente, sua música estaria mais para a Tropicália baiana do que para o Clube da Esquina de seus conterrâneos. Parâmetros usados para situá-lo mas que não significam um aprisionamento ao formato ou simples cópia. Ele é autor de oito das dez faixas de “Mana” (independente / http://www.lglopes.com/), algumas em parcerias com os músicos que participaram das gravações, principalmente o baixista/vocalista Téo Nicácio, mais Mateus Bahiense (bateria e percussão) e Daniel Pantoja (flautas), trio ao qual LG apelidou de “O Cangaço Lírico” (esta também o título da única música sem letra, assinada pelos quatro). Para completar o repertório estão “Caboclin”, dos mineiros Thiago Braz e Gustavito; e “Matança”, do baiano Augusto Jatobá, esta uma list-song denúncia da devastação que acaba com “caviúna, cerejeira, baraúna,
 / imbuia, pau d’arco, solva, / juazeiro e jatobá / gonçalo-alves, paraíba, itaúba, /louro, ipê, paracaúba, peroba, /maçaranduba / carvalho, mogno, canela, imbuzeiro, /catuaba, janaúba, aroeira…” etc.  Assim, sem música, pode parecer enciclopédia botânica, mas deu em boa música, nas mãos de um power trio.
    Apesar da referência à Tropicália a sonoridade está mais para a dos discos de Caetano em meados dos anos 1970, tipo “Joia”/”Qualquer coisa”, “Bicho”, “Muito”. Também caetânica soam composições de LG como o afoxé “Apologia” (uma das duas com participação de Maurício Pereira (voz), que também toca sax e assovia em “Caboclin”) e a balada “Quileia” (esta, parceria com Paulo César Anjinho e cantada em dueto com Ceumar). Mas, como já tinha dito, esses são paralelos possíveis (e interessantes), que convivem com outras fontes e passam pela digital de LG.

@@@@@

    Na praia instrumental que tem sido a que mais me banho nos últimos tempos, “Suíte para improvisadores” (independente) é curioso projeto, bem realizado. Autor,  arranjador e produtor dos seis temas do disco, Ronaldo Diamante (baixos elétrico e acústico) usou ritmos como samba, valsa, funk e salsa como base para o trabalho em estúdio, aberto a improvisações dos músicos, que gravaram ao vivo, todos juntos. Alguns dos títulos adiantam parte da história, ou de suas inspirações,  caso de “Samba do Coltrane”, o longo (12:45) e viajante à la “A love supreme” tema de abertura, apresentado por um grupo de dez músicos, com solos de, entre outros, Fernando Trocado (sax alto), Daniel Garcia (sax tenor) e Arthur Dutra (vibrafone); “Cristina no céu de Duke Ellington”, esta, composição que parte de  “In a sentimental mood”,  com formação de trio de piano (Marco Tommaso), contrabaixo (Diamante) e bateria (Kleberson Caetano); ou de “Barbieri” (em memória do saxofonista argentino Gato Barbieri). Através do disco também marcam presença instrumentistas como Tomás Improta (piano), Renato Massa (percussão), Marcos Suzano (pandeiro/percussão eletrônica), David Ganc (flauta) e Josiel Konrad (trombone). Músicos de diferentes gerações e formações, prontos para improvisar a partir das coordenadas estabelecidas por Diamante.
    Gravado no carioca Estúdio Verde, “Suíte para improvisadores” terá show de lançamento na próxima semana, dia 18 de agosto, às 21h, no Triboz – este, um dos redutos do jazz no Rio, instalado na Lapa há quase uma década pelo trompetista australiano Mike Ryan.

@@@@@
 
   Da mesma praia, mas de águas mais para o clássico é o encantador encontro desses xarás de iniciais, que são usadas no título acompanhadas das respectivas idades de cada, 60 e 40 anos de, respectivamente, Antonio Meneses e André Mehmari. Nas 15 faixas de “AM60 AM40”, sete são de Mehmari, incluindo uma “Suíte brasileira para violoncelo e piano” em cinco partes, “Preludio”, “Choro-canção”, “Frevo”, “Valsa” e Baião”. Como se percebe, peça similar em alguns aspectos à de Diamante, só que seguindo outros rumos, mais camerística. Os temas do pianista, que ainda assina “Impermanências” e “Aurora nasceu”, convivem e dialogam bem com os quatro clássicos barrocos de J.S. Bach (“Arioso da Cantata BWV156”, “Adagio da Toccata em dó maior para órgão, BWV 564”,”Chorale Prelude ‘Nun komn, der Heiden Heiland’ BWV 599” e “Aria, da suite para orquestra nº 3 BWV 1068”) e as quatro restantes. Estas, entre o Brasil de  Tom & Vinicius (“Sem você”) e André Vitor Corrês (“André de Sapato Novo”), e a Argentina de Alberto Ginastera (“Pampeana nº2”) e  Astor Piazzolla (“Le grand tango”).

@@@@@

    Por falar em jazz e Sesc, nesta quinta (10/8), começou na sede da Pompeia a sétima edição do Jazz na Fábrica Festival, que vai se estender até 27 de agosto. Sempre de quinta a domingo, na programação  estão músicos de África do Sul, Alemanha, Espanha, EUA, Gana, Israel, Moçambique e Brasil, transitando pelos múltiplos caminhos do jazz. Hoje e amanhã, acontecem os shows de Hermeto Pascoal & Grupo, lançando o recente álbum duplo “No mundo dos sons”. Na semana que vem, a convite do evento, poderei contar mais, aqui e também no site do evento.

    Prosseguindo no mood agendjazz, nesta quarta, 16/8, mais num dos raros (e modestos, se comparado aos de Sampa) Sesc cariocas, o de Copacabana, que abrigará “Baden 80 anos – Ludere”. Traduzindo, o quarteto formado por Philippe Baden Powell (piano), Bruno Barbosa (contrabaixo), Rubinho Antunes (trompete) e Daniel de Paula (bateria) vai comemorar os 80 anos que o violonista teria completado em 6 de agosto num concerto com algo de seu fabuloso repertório.
 
    Mesmo à margem da indústria cultural, fora das paradas de sucesso, o centenário jazz não para e se abre em muitas vertentes. No Rio, que, em breve vai ganhar uma filial do clube Blue Note (a inaguração é dia 31 de agosto) há muita opção. Baterista e compositor que, nos últimos tempos, tem apresentado concertos temáticos celebrando álbuns clássicos de, entre outros, Miles Davis (“A kind of blue”) e John Coltrane (“A love supreme”), Roberto Rutigliano enviou-me uma relação de locais nos quais o jazz impera.
1. TribOz (Lapa)
2. Casa de Baco (Lapa): Jam session toda quarta
3. AABB da Tijuca:  Jam toda segunda
4. Marco (Santa Teresa):  Instrumental toda sexta
5. Cardosão (Laranjeiras): instrumental todas terça e sexta
6. Nanam (Centro):  Jazz toda quarta
7. The Maze (Catete)
8. Áudio Rebel (Botafogo)
9. Arlequim (Centro)
10. Cine Joia (Laranjeiras)
11. Vizinha 124 (Botafogo)
12. Coordenadas Bar (Botafogo)
13. Casarão 22 (Botafogo)
14. Teto Solar (Botafogo)
15. Gaya Café (Leme)
16. Colab (Botafogo)
17. Bar dos Descasados (Sta Teresa)
18. Moviola (Laranjeiras)
19. Espero Carioca (Centro)
20. Oscar Bistro (Leblon)
21. Assis Garrafaria (Laranjeiras)

À lista de Rutigliano posso acrescentar locais nos quais o jazz também têm vez como o renascido Beco das Garrafas (graças à cantora e produtora Amanda Bravo);   a Sala Baden Powell sob a gestão de João Donato; e o Árabe da Gávea, onde o guitarrista Sérgio Brandão é um dos residentes. Ou então eventos como “Acarajazz” –  que, na sexta-feira retrasada, 4/8, com sua edição Tropicália, lotou o Largo de São Francisco da Prainha com seu grupo e DJs residentes, respectivamente, Bondesom e Eppinghaus &  Montano – e o Mistura Mar. Este, capitaneado por Pedro Paulo Machado (do finado Mistura Fina), tem alternado hotéis na orla carioca e, no próximo domingo, 20/8, acontece no Vivo Rio, com o show do trompetista Roy Hargrove e da cantora italiana Roberta Gambarini. Ou seja, pega carona, e antecipa, o que paulistanos assistirão dias 24 e 25/8 no Jazz na Fábrica.